O Regime Escocês Rectificado é de forma incorrecta tradicionalmente conhecido e divulgado como Rito Escocês Rectificado. Se efectivamente, na prática maçónica, Rito é empregado em detrimento de Regime, trata-se de uma utilização que gradualmente se estabeleceu ao longo do tempo, mas que manifesta uma progressiva perda de conhecimento da noção precisa, que em substância diferencia cada uma das expressões.
A noção de “Rito” refere-se fundamentalmente à composição e disposição da Loja e à organização e cerimonial do ritual. Trata-se, por exemplo, do número de oficiais e do seu lugar na Loja, do nome e lugar das colunas, dos sinais, palavras e toques, das deslocações (marcha) em Loja e a forma de abertura e encerramento da Loja. Em suma, o que constitui o rito é o conjunto de acções ou procedimentos simbólicos, geralmente repetidos e com um significado específico. O Rito, é assim, o suporte do trabalho iniciático, o conjunto de cerimónias maçónicas determinados pelas autoridades competentes
Bem diferente é a noção de “Regime”, pois refere-se ao conjunto de regras ou normas mais amplas que organiza uma instituição ou Loja ao longo do tempo. Trata-se de um corpo ou órgão que implica um tipo de organização estrutural hierárquica, condição sine qua non da progressão iniciática. Numa palavra, é uma Ordem. E resumindo podemos afirmar que o e o Regime é mais estrutural e o Rito é mais cerimonial.
Então, e falando de rito, o Rito Escocês Rectificado constitui uma das expressões mais organizadas e espiritualmente orientadas da tradição maçónica, resultado do esforço consciente de reforma e sistematização realizado no século XVIII, particularmente sob a orientação de Jean-Baptiste Willermoz. Procura integrar simbolismo maçónico, espiritualidade cristã e ideal cavaleiresco em um único sistema iniciático. Mais do que uma estrutura ritualística, o Rito propõe um caminho de aperfeiçoamento moral e espiritual, convidando o iniciado a trabalhar sobre si mesmo e a colocar a sua vida ao serviço da virtude e da humanidade.
Entre os diversos sistemas ritualísticos de tradição maçónica europeia, o Rito Escocês Rectificado (RER) ocupa um lugar singular pela coerência da sua estrutura e pela profundidade espiritual dos seus ensinamentos. Surgido no final do século XVIII este Rito representa uma tentativa consciente de reformar e reorganizar certos sistemas maçónicos, que à época se encontravam marcados por grande diversidade ritualística e doutrinária.
O Rito Escocês Rectificado é um dos sistemas iniciáticos mais estruturados e espiritualmente orientados da tradição maçónica. Trata-se de um sistema iniciático profundamente espiritual, que busca não apenas transmitir ensinamentos simbólicos, mas promover a verdadeira transformação moral e interior do homem. A palavra rectificado significa “corrigido” ou “reordenado”.
O século XVIII foi marcado por uma extraordinária expansão da Maçonaria na Europa. Ao mesmo tempo proliferaram numerosos sistemas ritualísticos, muitos deles influenciados por correntes esotéricas, cavalheirescas e místicas.
Entre esses sistemas destacou-se a chamada Estrita Observância Templária fundada por Karl Gotthelf von Hund, sistema que afirmava manter uma suposta continuidade histórica com a antiga Ordem dos Templários. Com o passar do tempo surgiram dúvidas quanto à autenticidade histórica dessas alegações, o que levou diversos maçons a procurar uma reorganização mais coerente e fundamentada do sistema.
Nesse contexto destacou-se a acção de Jean-Baptiste Willermoz, comerciante e maçon de Lyon, profundamente interessado em integrar a Maçonaria com uma visão espiritual e iniciática mais estruturada. Mas Willermoz era também membro da ordem fundada por Martinez de Pasqually conhecida como Ordem dos Cavaleiros Maçons Eleitos Cohen do Universo, cuja doutrina central era a chamada “reintegração dos seres”, tese que Pasqually defende na sua conhecida obra “Tratado da Reintegração dos Seres”
O Rito Escocês Rectificado nasceu então em um período de intensa efervescência intelectual e espiritual. A sua reorganização definitiva ocorreu entre 1778 e 1782, culminando formalmente organizado durante o Convento de Wilhelmsbad realizado em 1782 na cidade de Hanau, então parte do Sacro Império Romano-Germânico, actual Alemanha. Esse encontro reuniu representantes e delegados de diversas correntes maçónicas europeias com o objectivo de reformar e consolidar um sistema iniciático coerente.
A figura central desse processo foi Jean-Baptiste Willermoz, profundo estudioso da tradição espiritual cristã e da filosofia iniciática. Para construir o Rito reuniu e reorganizou elementos de várias tradições:
Durante os debates concluiu-se que não existiam efectivamente provas históricas sólidas que sustentassem a filiação directa da Maçonaria à antiga Ordem dos Cavaleiros Templários. Dessa constatação decidiu-se abandonar as pretensões de continuidade histórica e reorganizar o sistema ritualístico de maneira mais simbólica e espiritual
Desse esforço resultou um rito profundamente marcado por uma dimensão espiritual e moral, com forte inspiração cristã e uma visão da Maçonaria como caminho de regeneração interior do homem, procurando reconduzi-lo à sua condição espiritual original.
O sistema do Rito Escocês Rectificado caracteriza-se por uma organização relativamente simples, quando comparada com outros ritos maçónicos Possui uma organização particular que combina graus simbólicos maçónicos com uma ordem cavaleiresca interna ou interior.
1º grau – Aprendiz
2º grau – Companheiro
3º grau ‒ Mestre
Estes três graus correspondem à base universal da Maçonaria e estão integrados e transmitidos por uma Grande Loja, no caso português pela GLLP/GLRP.
4º grau ‒ Mestre Escocês de Santo André (este grau faz a transição entre a maçonaria simbólica e os graus cavaleirescos)
5º grau ‒ Escudeiro Noviço (EN)
6º grau ‒ Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa (CBCS)
Estes três graus estão integrados e transmitidos pelo Grande Priorado Independente da Lusitânia (GPIL).
O Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa representa o ideal moral do rito, isto é, um homem comprometido com a virtude, a caridade e o serviço à humanidade. Esse ideal inspira-se na tradição espiritual da cavalaria medieval e na ética cristã de serviço ao próximo preservando um simbolismo ligado à tradição templária.
A maçonaria francesa dos seus primórdios apresentava um caráter marcadamente cristão. As Regras Gerais da Maçonaria de 1736, assinadas pelo conde de Derwentwater, inserem-se na continuidade das Old Charges anteriores a 1717, permitindo admitir que a maçonaria especulativa continental tenha sido introduzida ainda no século XVII.
Desde muito cedo, coexistiram lojas simbólicas com estruturas mais elevadas — capítulos e graus cavaleirescos — o que contraria a ideia de que os altos graus seriam uma criação tardia. Entre 1733 e 1743 surgem referências documentais a “Scots Masters” em Londres, a “graus adicionais” ao de Mestre em Lisboa (mencionados perante a Inquisição), a lojas de Mestres Escoceses em Berlim e a práticas semelhantes em Paris.
Do ponto de vista simbólico e narrativo, estes altos graus iniciais organizam-se em torno de dois grandes eixos:
É este segundo eixo que irá estruturar a chamada maçonaria templária do século XVIII.
A forma mais sistemática da maçonaria templária surge com a Estrita Observância, fundada formalmente em 1751. A sua história está ligada ao barão Karl von Hund, iniciado em Frankfurt em 1741 e recebido em Paris, em 1743, como cavaleiro templário por uma autoridade enigmática, designada como eques a Penna Rubra.
Von Hund frequentou círculos jacobitas compostos por exilados ingleses e escoceses, que defendiam a restauração da casa Stuart. Reconheceu Carlos Eduardo Stuart como Grão-Mestre secreto da Ordem e alegava ter recebido dos chamados “Superiores Desconhecidos” um mandato que o nomeava Grão-Mestre Provincial da Sétima Província (Alemanha), com poderes para “retificar” a maçonaria.
Em 24 de junho de 1751, a constituição da loja As Três Colunas, em Kittlitz, marca o nascimento formal da Estrita Observância. A Ordem passa a dispor:
O Convento de Altenberg (1764)
O primeiro grande Convento da Ordem realizou-se em Altenberg, em 1764. Este encontro foi inicialmente dominado por um impostor, conhecido como Johnson, que se apresentava como emissário dos Superiores Desconhecidos. Após ser desmascarado, foi aprisionado no castelo de Wartburg, onde morreu.
Este episódio reforçou paradoxalmente a autoridade de von Hund e marcou o início do período de maior expansão e estabilidade da Estrita Observância.
O impacto da Guerra dos Sete Anos
A atividade da Ordem foi interrompida entre 1756 e 1763 devido à Guerra dos Sete Anos, circunstância compreensível, uma vez que muitos dos seus membros eram oficiais militares. Com o fim do conflito, os trabalhos foram retomados com renovado vigor.
O Convento de Kohlo (1772)
Em 1772, realizou-se o Convento de Kohlo (atual Brody, na Polónia), decisivo para a história da Ordem. Neste Convento concretizou-se a fusão da Estrita Observância com o sistema dos Clerici Ordinis Templariorum, liderados por Johann August von Starck, que defendia uma origem essénia da maçonaria e reinvidicava a posse dos segredos espirituais dos Templários.
O duque Ferdinand de Braunschweig, uma das figuras militares mais prestigiadas da Europa, foi eleito Grão-Mestre de todas as lojas unidas.
O Convento de Braunschweig (1775)
O Convento de Braunschweig, em 1775, marca o declínio definitivo da liderança de Karl von Hund. Incapaz de provar a identidade do seu iniciador parisiense, von Hund perde autoridade, e a Ordem passa a designar-se Lojas Alemãs Unidas, sob a liderança consolidada de Ferdinand de Braunschweig.
O Convento de Wiesbaden (1776)
Em Wiesbaden, no castelo de Biebrich, foi desmascarado outro impostor, Gugomos, e nesse mesmo ano ocorre a morte de Karl von Hund. A Estrita Observância entra então numa fase de reavaliação profunda das suas bases míticas e estruturais.
O Convento de Wolfenbüttel (1778)
O Convento de Wolfenbüttel, em 1778, teve como objetivo uma verdadeira “gestão de danos”. Nele:
Este Convento prepara o terreno para a grande reforma que se seguiria.
Enquanto a Estrita Observância atravessava crises internas, desenvolvia-se em França a Ordem dos Eleitos-Coëns, fundada por Martines de Pasqually, figura enigmática, de provável origem marrana.
Pasqually afirmava deter:
A sua doutrina, marcada por influências cabalísticas e cristãs (alguns autores defendem também ver na doutrina martinesista traços do messianismo sabataísta), estruturava-se em torno da queda do homem e da sua reintegração no estado primordial.
Após a sua morte, em 1774, figuras como Jean-Baptiste Willermoz, Louis-Claude de Saint-Martin e Jean-Jacques d’Hauterive redigiram as chamadas Lições de Lyon, preservando e sistematizando este corpus doutrinal.
O Convento das Gálias (Lyon, 1778)
Entre novembro e dezembro de 1778, realizou-se em Lyon o Convento Nacional das Gálias, reunindo as províncias francesas. Este Convento constitui o verdadeiro ato fundador do Regime Retificado. Entre as decisões fundamentais contam-se:
O (primeiro) Convento de Wilhelmsbad (1782)
O culminar do processo ocorre no primeiro Convento de Wilhelmsbad, realizado entre julho e setembro de 1782, sob a presidência de Ferdinand de Braunschweig.
Três grandes correntes confrontaram-se:
A vitória coube aos místicos. Foi adotada a reforma lionesa, consagrada definitivamente a via espiritual do Regime Retificado e feita a renúncia explícita à herança templária material, preservando apenas o simbolismo.
Após Wilhelmsbad, com a fixação definitiva da sua orientação doutrinal e espiritual, o Regime Retificado conheceu um período de expansão e intenso trabalho ritual. A Revolução Francesa, porém, teve um impacto devastador: execuções, destruição de arquivos e suspensão das lojas francesas.
O (segundo) Convento de Wilhelmsbad (1817)
Em 1817, realizou-se um novo Convento em Wilhelmsbad, com um objetivo distinto daquele de 1782. Já não se tratava de reformar o sistema, mas de confirmar a continuidade institucional e a legitimidade do Regime Retificado após os abalos provocados pela Revolução Francesa e pelas guerras napoleónicas.
Neste Convento foi confirmada a posição de Karl de Hesse-Kassel como Grão-Mestre da Ordem, reafirmando a fidelidade do Regime às decisões tomadas em Lyon (1778) e em Wilhelmsbad (1782).
As lojas francesas não sobreviveram ao final da segunda década do Século XIX; contudo, a Ordem sobreviveu graças à sua continuidade na Suíça e na Alemanha, e posteriormente apenas na Suíça, que manteve a transmissão iniciática.
O Regresso a França
Em 1910, Camille Savoire liderou um movimento de religação do Regime Escocês Retificado ao Grande Priorado da Helvécia, reconhecendo a legitimidade suíça como herdeira direta das decisões de Lyon e de Wilhelmsbad. No âmbito desse processo, foram criadas novas lojas do Regime Retificado em França, ainda integradas no Grande Oriente de França, num contexto marcado por prudência institucional e gradual reconstrução.
A reentrada plena do Regime em território francês só se consolidaria mais tarde, quando o Grande Priorado da Helvécia emitiu, em 1935, uma patente formal para a criação do Grande Priorado das Gálias, restabelecendo de forma regular e legítima a presença do Regime Escocês Retificado em França.
A presença do RER em Portugal concretiza-se em dois momentos decisivos, que conclui a secção sobre Portugal:
em 1987, com a criação da Loja Fernando Pessoa;
em 1995, com a consagração do Grande Priorado Independente da Lusitânia, assegurando a continuidade portuguesa desta tradição iniciática europeia.